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Do apito no colégio à arbitragem profissional: a trajetória de Rodrigo Félix

Você pode até não saber, mas as cidades de Niterói, São Gonçalo, Maricá e Itaboraí estão repletas de profissionais de arbitragem. Uns experientes, outros da nova geração. O futebolgoncalense.com começa a apresentar estes nomes, começando por Rodrigo Félix, de 29 anos.

Rodrigo, gonçalense cria do Mutuá e morador de Nova Cidade, é árbitro formado pela Escola de Arbitragem da Federação de Futebol do Rio (EAFERJ). Desde 2015 vem trilhando um caminho sólido, já atuando em competições profissionais do estado. A paixão pelo apito vem dos tempos de escola.

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O gonçalense Rodrigo Félix, 29 anos,  integra a nova geração de árbitros do Rio de Janeiro. Foto: Marcos Faria.

– Tive essa paixão no Clélia Nanci, onde estudei até o ensino médio. Os professores organizavam o campeonato e me colocavam para apitar. Era algo sem compromisso, mas fui criando gosto e os outros alunos me chamavam para apitar. Na faculdade era a mesma coisa. Eu cheguei a jogar no Vasco, quando garoto, mas fraturei o tornozelo e larguei o futebol. Foquei em estudar – relembra.

Formado em educação física, Rodrigo sempre teve o futebol como paixão. A aproximação ainda maior com a arbitragem veio quando ele atuava como gandula do São Gonçalo EC, nos jogos do Clube Esportivo Mauá, entre 2012 e 2013.

– Fui direto para a Escola de Árbitros da Federação. Um dos pulos foi a época em que eu era gandula do São Gonçalo e observava os árbitros. Enquanto outros xingavam, eu buscava ponderar. Fui criando esse vínculo. Tirava dúvida com eles e muitos me davam apoio, inclusive o Edilson Soares (ex-árbitro e atual técnico e analista da função na FERJ).

Jogos marcantes

Na EAFERJ foram 11 meses de curso com aprofundamento nas mais diversas áreas da arbitragem e do esporte de alto rendimento. O primeiro jogo foi um Olaria 6×0 Heliópolis, na Rua Bariri, em 2015, pela categoria sub-15. De lá para cá, a quilometragem só aumentou.

– Um jogo marcante foi São Gonçalo x Santa Cruz, em 2018. Foi meu primeiro como árbitro principal num jogo da Série B1. Também tive muitas oportunidades na base, com finais no sub-15, 17, 20. Em 2017, apitei Vasco 1×0 Fluminense, uma final de Taça Rio nas Laranjeiras. Foi outra partida que me marcou muito – conta Félix, que apontou ainda o jogo mais complicado em que esteve no comando.

– Duque de Caxias x Olaria, em 2017, no Marrentão, pelo sub-20. Olaria ganhando de 3 a 0, mas deu uma relaxada. O Duque virou para 4 a 3 no segundo tempo e deu confusão envolvendo torcida e jogadores. Não tive nada a ver com o resultado, mas ficou marcado.

Inspirações e igualdade racial

Grandes nomes da arbitragem do Rio de Janeiro estão entre as inspirações de Rodrigo Félix, casos de Edilson Soares da Silva, Luis Antônio Silva dos Santos e Marcelo de Lima Henrique. Figuras da região Leste Fluminense que abriram caminho para a nova geração.

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Rodrigo Félix em ação na partida entre São Gonçalo e Santa Cruz, pela Série B1 do Carioca. Foto: Jhonathan Jeferson.

– Aqui em São Gonçalo, os que me deram mais apoio foram Halph de Paula, que me abraçou na Federação, me deu apoio, o Fábio e o Edilson Soares da Silva. São os três pilares. Tem também o Glauco da Liga de Futebol 7, o Glauber… Os espelhos no Rio são o Edilson Soares, o Marcelo de Lima Henrique e o Índio (Luis Antônio Silva Santos). A nível nacional eu gosto muito do Raphael Claus e do Luiz Flávio de Oliveira, até por se tratar de um árbitro negro – explica Rodrigo, entrando também no tema da igualdade racial.

– Você liga a TV e, em 100% dos árbitros, só 20, 30% são negros. Mas com esses últimos acontecimentos no mundo a tendência é ter uma consciência maior. Não podemos deitar nessa zona de conforto e ser inferiores. Temos que correr atrás dos nossos sonhos. O lugar que pode ser de outra cor, pode ser nosso. Já senti esse preconceito, mas não me abala em nada. A criação que eu tive foi de respeitar o lugar do próximo, mas sempre colocando na minha mente que posso correr atrás.

Árbitro querido por atletas

É comum ver uma boa relação entre Rodrigo Félix e os jogadores nas partidas em que apita. Encontrar o ponto certo para se impor sem criar uma rivalidade com atletas e treinadores é uma das motivações do árbitro.

– Eu fujo dessa visão de que o árbitro tem que ser inimigo. Temos que dar respeito aos jogadores e eles a nós. Cada jogo é um jogo. Você pode dar uma bronca, mas também tentar conversar. Graças a Deus nunca tive problema. Agreguei boas relações. Ali dentro cada um vai puxar pela sua camisa e eu vou puxar pela minha, que é a da Federação. Até hoje, quando encontro jogadores em eventos sociais, por exemplo, recebo esse lado afetivo e de respeito – garante Rodrigo, relembrando também elogios valiosos que recebeu de treinadores.

– Agradeço ao Eduardo Barroca (ex-técnico da base do Botafogo), o Marcus Alexandre (base do Vasco), o Zé Ricardo (Flamengo)… sempre me elogiaram, perdendo ou ganhando, e ligavam para a Federação me parabenizando. Isso é algo importante.

Relação com parceiros de profissão

Enquanto os jogadores possuem um treinador à beira do campo, na arbitragem não é diferente. Junto do quarteto é escalado um técnico, que tem a função de analisar a atuação, orientando árbitros e assistentes a cada partida.

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Rodrigo Félix é formado na Escola de Árbitros da Federação de Futebol do Rio de Janeiro. Foto: Marcos Faria.

– Ali eles funcionam como analista e técnico. Nos orientam. Em campo estamos vendo uma coisa, mas essa outra leitura deles nos ajuda muito. Eles não pedem para fazer isso ou aquilo, mas estão ali para ajudar e abrir nossa mente. Conversam e nos dão um entendimento que ajuda em nosso plano de jogo.

Um passo de cada vez

Rodrigo Félix não esconde que sonha alto quando o assunto é arbitragem. No entanto, demonstra a consciência de que é preciso subir um degrau por vez, sem queimar etapas.

– Quando você entra na Federação, já pensa logo em chegar numa Copa do Mundo e uma final de Mundial, mas no passar dos anos a gente vê que a realidade não é essa. Eu não penso num objetivo lá na frente. Penso passo a passo.

– Quando estava no curso, pensei em terminar e queria chegar ao sub-20, depois profissional, e conquistei. Agora o objetivo é chegar na Série A do Rio. Não adianta pensar num Brasileiro, na CBF, no escudo da FIFA, se ainda tem muito tijolo pra chegar a esse ponto.