Canto do Rio São Gonçalo EC

Da Paraíba à Finlândia, Thiago Trindade acumula sucesso e histórias inusitadas

Bagagem futebolística é o que não falta para Thiago Trindade. O gonçalense de 31 anos tem um currículo diversificado como jogador profissional. Atuou pelo tradicional Campinense, da Paraíba, vestiu a camisa do Goytacaz, no Rio de Janeiro, defendeu clubes do Leste Fluminense, como São Gonçalo EC e Canto do Rio, e já encarou até mesmo o frio da Finlândia.

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Thiago Trindade em ação pelo Kajaani, da Finlândia. Na Europa, são duas temporadas e 14 gols. Foto: Divulgação.

Tanta quilometragem rendeu ao meia-atacante histórias das mais variadas para contar, como na época de Campinense. Logo no início da carreira, na primeira experiência fora do Rio, se viu vestindo a camisa de um dos mais tradicionais clubes do Nordeste. Sentiu, na pele, o peso de defender uma torcida fanática.

– Foi bem marcante. Eu saí do Serra Macaense e estava bem em termos de conquista pessoal, com acesso, sendo artilheiro do campeonato. Foi uma transição muito bacana. Nunca tinha ido em Campina Grande. Foi fenomenal. Um clube grande, com cobertura intensa de TV e rádio. Assinei por um ano, joguei bastante, fiz gols, convivi com torcida apoiando e cobrando – recorda Thiago, que guarda um episódio específico na memória.

– Foi uma final contra o Treze (maior rival do Campinense). Estávamos concentrados dois dias antes. Numa noite estávamos fazendo a ceia e a torcida soltou fogos dentro da concentração. No dia seguinte, no campo de treino, tinham vários bilhetes nos ameaçando, cobrando a vitória no clássico. Na hora dá pânico, mas você vê depois que eles são fanáticos.

Na Finlândia, exigência inusitada: 50 chutes a gol

Após defender o São Gonçalo EC em 2016, Thiago Trindade viveu no ano seguinte a primeira experiência no exterior. Na Finlândia, foi contratado pelo OPS, clube da segunda divisão local. Apesar de ter viajado de contrato assinado, ao chegar lá foi preciso comprovar que era mesmo o jogador do DVD assistido pelo presidente da equipe.

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Ao chegar no OPS, da Finlândia, Thiago Trindade precisou comprovar habilidades de finalização. Foto: Divulgação.

– Cheguei num sábado após viajar pra caramba. Dormi o dia todo e no domingo o presidente me levou para um campo coberto porque estava nevando. Eu fui achando que era treino, mas só tinha eu, o presidente e o goleiro. Dei mais de 50 chutes. Fiquei com a perna pesadona, ainda mais depois de 30 horas viajando. Depois me levou para a casa dele, almoçamos e ele disse que eu estava contratado mesmo. Já tinha saído do Brasil com contrato, mas ele queria confirmar se era eu mesmo o jogador do DVD que ele tinha assistido – conta Trindade, que na Europa encontrou seu melhor rendimento como meia.

– Quando cheguei, em 2017, tive muita dificuldade de adaptação. Lá é muito truncado, bola aérea o tempo inteiro, e o juiz sem marcar nada. Fui como centroavante, mas o presidente me observou e no terceiro amistoso me colocou de meia. Quando fui contratado pelo segundo clube (Kajaani, em 2019), já era conhecido e eles me levaram para ser meia mesmo – explica o gonçalense, que soma 14 gols nos gramados finlandeses.

As duas temporadas na Europa foram tão produtivas que Thiago Trindade sente saudade. Outro contrato já estava alinhavado para 2020, mas a pandemia do novo coronavírus impediu o retorno.

– Fui para lá em 2017 pensando que seria só frio. O futebol é o segundo esporte do país, não tem tanta preferência. Eles preferem hóquei no gelo. Mas foi fenomenal. Um país absurdo em termos de cultura e educação. Sinto saudades. Agora em 2020 recebi outro convite e já estava tudo certo, havia renovado passaporte, mas não estava podendo entrar estrangeiro no país.

Sucesso pelo São Gonçalo e frustração no Canto do Rio

Thiago Trindade, que é do bairro Maria Rita, teve a oportunidade de defender o São Gonçalo EC em 2016. Foi campeão da Série C do Carioca, marcou cinco gols em 16 jogos e realizou o sonho de defender um clube da cidade natal.

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Pelo São Gonçalo, em 2016, foram cinco gols, acesso e título na Série C do Carioca. Foto: Jhonathan Jeferson.

– Foi perfeito. Era uma meta. Para muitos pode ser um sonho pequeno, de jogar uma terceira divisão, mas queria jogar por aqui. A maioria dos clubes que joguei são de outros lugares e não tinha contato com amigos, mãe, primos, não podia entrar com minha filha em campo. No São Gonçalo entrei com minha filha, fiz gol, fui campeão… Para montar um time igual aquele vai ser complicado. Eram todos unidos em um só objetivo.

Dois anos depois, um novo desafio no Leste Fluminense: liderar o Canto do Rio na disputa da quarta divisão estadual. No fim das contas ficou a frustração. O clube foi eliminado nas quartas de final, em confronto diante do Mageense.

– Frustração é a palavra. Até hoje fico pensando nisso. Depois eu fiquei na Finlândia um ano jogando em outro clube e pensava nisso. Fizemos tudo certo, o clube deu totais condições, a comissão tinha todos os profissionais possíveis, tinha tudo. Foi uma surpresa que tive. Jamais esperava que na nossa região um clube montaria uma estrutura dessa forma para jogar uma quarta divisão. Até por isso foi a maior frustração.

– Fiquei com a sensação de que deveria ter ajudado mais, por mais que tenha feito gols. Chegamos invictos até o momento da eliminação. Foi complicado. Não só para mim, mas para o pessoal todo. Deveria ter mais projetos dessa forma na região, com o pessoal chegando junto. Tem muitos jogadores bons que saem, sendo que podiam jogar por aqui.

Grandes experiências no Norte do Rio de Janeiro

A carreira de Thiago Trindade passa em grande parte pelo futebol do Norte do Rio de Janeiro. Na região, vestiu as camisas de Goytacaz, Quissamã (onde jogou a Série A do Carioca), São João da Barra e Serra Macaense (time em que iniciou no profissional).

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Thiago Trindade com a camisa do Goytacaz. Em Campos, cobrança da torcida ficou marcada. Foto: Gabriel Andrezo.

– Joguei a primeira divisão do Carioca no Quissamã e foi muito bom. Queria jogar contra o Botafogo, meu clube do coração, mas saí antes disso. Joguei contra Flamengo e fui titular contra o Fluminense. Fiz até um golzinho no campeonato. No Serra foi interessante porque o clube me abriu as portas para assinar como profissional, assinando minha carteira. Lá tirei meu primeiro passaporte. Para quem tinha saído dos juniores foi algo legal de se viver – relembra Trindade, que encarou também a pressão da torcida do Goytacaz.

– Foi uma das experiências mais legais, apesar de não ter feito muitos jogos como titular por conta de uma lesão no ombro. É uma torcida que comparece até aos treinos. Na rua o pessoal te reconhece. Eles vão até em jogos distantes, além de estar sempre cheio em casa. Pelo tamanho que tem, a torcida deveria ajudar ainda mais. Eles criticam mais do que apoiam, como toda torcida. São muito fanáticos e acabam extrapolando às vezes. Se a torcida fosse junto mesmo, no dia a dia, conhecendo o que o atleta passa, seria a quinta maior força do Rio.

Mais desafios pela frente

Aos 31 anos, Thiago Trindade segue fazendo planos com o futebol, mesmo cursando o sexto período da faculdade de educação física. A Finlândia segue como sonho de consumo, apesar de não descartar uma nova empreitada no Brasil.

– Sempre que joguei perto de casa eu dei continuidade na faculdade. Quando joguei no São Gonçalo eu comecei a estudar e dei sequência. Não descarto nada por aqui, até porque no momento estou sem clube, sem contrato. Mas sempre vejo com bons olhos voltar para a Finlândia. É uma vitória particular. Cheguei sozinho, só tinha eu de brasileiro e outros chegaram depois. Passei por várias coisas lá que me deixaram feliz como atleta.

FICHA TÉCNICA

Nome: Thiago Trindade de Moura
Posição: meia-atacante
Idade: 31 anos
Clubes:

  • Serra Macaense (RJ) – 2009/2011
  • Campinense (PB) – 2011
  • São João da Barra (RJ) – 2012
  • Quissamã (RJ) – 2012/2013
  • CRAC (GO) – 2013
  • Goytacaz (RJ) – 2013/2014
  • Caldas Novas (GO) – 2014
  • Atlético Itapemirim (ES) – 2015
  • São Gonçalo (RJ) – 2016
  • OPS (FIN) – 2017
  • Canto do Rio (RJ) – 2018
  • Kajaani (FIN) – 2019