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Crescimento pessoal e profissional marcam trajetória de Vitor Borges no exterior

Ser jogador de futebol profissional e conhecer o mundo estava nos planos do gonçalense Vitor Borges quando ele ainda era uma criança. Mas viver tudo que viveu, atuando em países onde jamais imaginou colocar os pés, foi algo muito acima do planejado. Singapura, Indonésia, Kuwait, Finlândia…

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Vitor Borges: mais uma cria de São Gonçalo que rodou o mundo através do futebol. Foto: Gabriel Farias.

O início, sem dúvidas, foi a parte mais difícil. Em 2010, Vitor deixou o Tigres (onde surgiu no futebol profissional) e arrumou as malas para Singapura. Lá começava uma verdadeira aventura para um jovem que, pouco antes, jogava bola no campo da comunidade da Coruja, em São Gonçalo.

– Foi a maior loucura da minha vida. Eu sou da favela, era moleque ainda, não sabia falar inglês. Cheguei lá e o treinador mandava ir para esquerda, eu ia para direita. Ele mandava segurar a bola e eu tentava arrastar. Sempre brigava com ele. Um auxiliar tinha mais paciência comigo e foi me ensinando o inglês e a língua local – recorda Vitor, que também encarou percalços fora de campo.

– Maior dificuldade era a comida. É tudo com pimenta. Aqui no Brasil eu não estava acostumado. Eu falava sem pimenta e os caras colocavam pimenta do reino – lembra aos risos.

Coube a um parceiro de ataque de Vitor o ajudar na adaptação. Dentro e fora das quatro linhas, os conselhos do amigo Rivaldo acabaram sendo valiosos para que o atacante gonçalense conseguisse se destacar e manter a cabeça em ordem.

– O Rivaldo, que era brasileiro, foi um pai, me ensinou tudo. Ele tinha 36 anos e falava cinco idiomas. Ele disse: “se quiser, eu te ajudo”. Abracei a ideia. Ele jogava na área e eu aberto. Eu fazia todo trabalho sujo e ele só empurrava para o gol. Ele me disse que eu era forte demais para jogar aberto, então fui para a área.

– Em 2011 fiz mais gols e joguei no time das estrelas de Singapura. Foi a parada mais sensacional da minha carreira. O Nakata (ex-jogador japonês) montou um time de estrelas para enfrentar a equipe de Singapura num jogo beneficente e eu pude participar de tudo aquilo.

“A Indonésia é a paixão da minha vida”

Os gols marcados em Singapura geraram interesse de outro centro do futebol asiático. Vitor Borges foi para a Indonésia e encontrou um cenário diferente. Um país menos estruturado, só que mais apaixonado por futebol.

– Lá foi mais fácil. A paixão da minha vida é aquele país. Em relação a futebol, é paixão pura, sempre com estádio lotado. Você se sente jogador de verdade. Totalmente diferente de Singapura, que não liga tanto para futebol. Foi o ponto alto da minha carreira. Foram os dois anos em que mais fiz gol. Tudo estava dando certo. Jogava e fazia gol. Até em questão de maturidade, já falava inglês, indonês, estava adaptado à comida, então me sentia em casa.

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Vitor Borges construiu uma carreira sólida no exterior, com passagens em quatro países. Foto: Divulgação.

– Eu queria jogar fora, tinha esse sonho, mas chegar em Indonésia e Singapura foi loucura. Eu nem sabia onde ficavam esses países. Você sai de uma comunidade em São Gonçalo e chega na Ásia. Eu me peguei falando em inglês. Fui no banco abrir uma conta e entendi tudo, assim como o gerente me entendeu. Eu saí de lá felizão. A gente cresce como homem, como ser humano. A cultura é outra, a mentalidade muda. Você convive com outras pessoas que pensam coisas totalmente diferentes.

Kuwait e Finlândia: novas experiências

Vitor Borges retornou ao Brasil em 2014, vestiu as camisas de Madureira e Itaboraí, e então partiu para novas experiências no exterior. Voltou ao continente asiático, dessa vez no Kuwait, e também recebeu a primeira oportunidade na Europa, na Finlândia.

– No Kuwait foi bom. Lá as coisas correram bem. Joguei em dois clubes. Tive alguns problemas com empresários, mas me saí bem. No Al-Sahil foi legal. Foi onde tive mais tempo e confiança.

– Na Finlândia morei com o Thiago Trindade (outro jogador gonçalense), um amigo de verdade. Lá é outro padrão, é show do milhão. Era um time que não tinha tanta expressão, mas foi uma experiência fantástica. Lá tudo funciona. Não tem tanta torcida ou emoção, mas tudo é correto, ninguém erra contigo. Tem condições de trabalho e organização.

No Brasil, sucesso pelo Tigres e sonho realizado no Maracanã

O primeiro clube da carreira profissional de Vitor Borges foi o Tigres, de Duque de Caxias. Lá, foi rapidamente promovido aos profissionais e obteve sucesso nas divisões intermediárias do Campeonato Carioca antes de sair para a Ásia.

Nas voltas ao Brasil, vestiu as camisas de três times do Rio de Janeiro, como Madureira, Itaboraí e Mageense, além do Aquidauanense, do Mato Grosso do Sul.

– No Tigres foi uma trajetória vencedora. Fiquei três anos e fomos campeões da Copa Rio, além de subirmos para segunda e primeira divisões do Carioca.

– No Madureira, em 2014, eu estava na minha melhor forma física, mas no primeiro jogo do campeonato eu não pude jogar por conta de inscrição. No terceiro eu joguei, mas lesionei o ligamento do tornozelo esquerdo. Ainda consegui jogar no sacrifício contra o Flamengo, no Maracanã. Era um sonho. Eu tinha voltado ao Brasil para viver aquele momento. Poderia ter continuado fora do país, mas se não tivesse vivido aquele momento no Maracanã, eu não seria realizado.

Retorno às raízes e desejo de continuar

Vitor Borges tem 32 anos e ainda pretende seguir com a carreira de jogador. Isso não impede que novos desejos surjam em mente, como um projeto social para crianças carentes da comunidade da Coruja, no bairro de Neves, em São Gonçalo. Justamente o local onde deu os primeiros passos da carreira.

– A gente faz um café da manhã e as crianças treinam junto comigo. Pra gente não é nada, mas pode mudar uma vida. Temos que abraçar. Não posso virar as costas ao lugar de onde saí. Se não fosse o esporte eu poderia nem estar aqui.

– Claro que uma hora vou ter que parar, mas dentro do meu coração quero pelo menos jogar mais um pouquinho. Tinha um projeto bom na Finlândia e não fui por causa do coronavírus. Iria voltar junto com o Thiago (Trindade), que é um cara que marcou na minha vida. Estou bem fisicamente e está nas mãos de Deus. Vou fazer 32 anos. Dá para jogar mais um pouquinho, mas não sei o que Deus está planejando.