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Valber Lessa vai de projeto social em São Gonçalo a título estadual com Ceres

Para que São Gonçalo mantenha a fama de ser celeiro de craques no futebol, é preciso que pessoas como Valber Lessa façam o trabalho de identificação de talentos e lapidação. O ex-jogador e atual treinador (49 anos) é referência na cidade quando o assunto é identificar bons atletas e encaminha-los na carreira.

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Valber Lessa é um dos grandes descobridores de talentos no futebol de São Gonçalo. Foto: Gabriel Andrezo.

Através do Projeto Valber Lessa, no campo do Recanto, em Itaúna, muitos passaram pelas mãos de Valber. Ex-jogador com passagens por times como Olaria, Americano, Rio Branco (ES) e Joinville (SC), o gonçalense utilizou da experiência vivida dentro das quatro linhas para se tornar um formador reconhecido.

– Fiz projetos em São Gonçalo e isso é minha vida. Ajudo a resgatar atletas, tirando da rua e realizando sonhos. Através disso cheguei no mirim do Profute, como treinador. Depois fui pro Silva Jardim, Itaboraí, fui bicampeão carioca no infantil da Portuguesa, fui treinador no Canto do Rio… E Deus me foi me abençoando até chegar em 2018 no profissional do Ceres.

– Tenho o projeto até hoje. É o projeto que mais emprega atleta no Brasil sem cobrar nada para ninguém. Só faço amistoso contra clubes e, onde vou, sempre deixo atletas. Uma vez jogamos contra o America, no juvenil, e deixei seis de uma vez só. Fiz amistoso contra o Vasco e ficaram três. Virou uma referência e os clubes vão pedindo. No Ceres, levei 12, sendo que nove viraram profissionais e seis foram titulares. Não cobro nada de ninguém. Eu até ajudo, seja pagando uma passagem, ajudando com uma chuteira…

No Ceres, título estadual e reconhecimento

Enquanto segue proporcionando boas oportunidades para os jovens de São Gonçalo, Valber aproveita para ir trilhando a carreira de treinador. No Ceres, time da Zona Oeste do Rio de Janeiro, recebeu a primeira oportunidade numa equipe profissional em 2018. Foi mantido no cargo no ano passado e conquistou o título da Série C do Campeonato Carioca. Tudo isso conciliando a carreira de técnico com a profissão de porteiro que exerce no Colubandê, em São Gonçalo.

– Eu costumo colocar Deus na frente do meu trabalho e da minha vida. Sou porteiro, trabalho de noite na escala de 12 horas por 36. Foi difícil sair de plantão indo direto para Bangu. Só tinha uma van comigo. Tínhamos que abastecer do nosso bolso, trocar pneu com nosso dinheiro. O Ceres não tinha um centavo porque estava numa dificuldade tremenda. Mesmo sabendo disso tudo, com campeonato apenas em setembro, começamos a trabalhar em janeiro do ano passado.

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No Ceres desde 2018, Valber Lessa se prepara visando a Série B2 do Carioca deste ano. Foto: Gabriel Andrezo.

– Fomos fazendo amistosos, pegando dali, daqui… Quando começamos, já tínhamos um time montado. Estreamos e para o segundo jogo não sabíamos se iria entrar em campo porque não tinha dinheiro, mas o presidente se esforçou muito e foi conseguindo se virar. O objetivo era o acesso. Não esperava ser campeão, para ser sincero. Depois que subimos, contra o Teresópolis, nos demos por satisfeitos, mas Deus tinha algo maior em nossas vidas. Só quem estava envolvido sabe da luta que passamos.

Treinador do próprio filho

No Ceres, Valber Lessa foi treinador do zagueiro Matheus, seu próprio filho. A relação não teve qualquer tipo de dificuldade, garante o técnico, que exalta a qualidade do defensor, eleito um dos melhores da Série C do Rio em 2019.

– Eu sou suspeito para falar do meu filho. Ele foi abençoado a cada partida ao apresentar um futebol de excelência. Marcou gols também e se tornou um paredão. Pela rodagem que tem, passou experiência aos outros jogadores. Não tive dor de cabeça porque ele fala por si. Ele joga por ter qualidade e não por ser meu filho. Tanto que nesse momento tem vários clubes interessados, mas queremos ele no Ceres – explica Valber, que agora tem a Série B2 pela frente com o time de Bangu.

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Valber Lessa com o filho Matheus e a esposa. Título em família na Série C de 2019. Foto: Arquivo Pessoal.

– Espero que Deus nos proporcione essa Série B2. São profissionais que dependem do trabalho para levar o sustento para a família. Em relação ao Ceres, vamos vir mais fortes, mais estruturados. Podemos contratar mais alguns atletas e pretendemos entrar com time visando o acesso. É um planejamento de em três anos chegar na primeira divisão, com os pés no chão. Vamos batalhar para isso.

Sonho de trabalhar em São Gonçalo

Valber Lessa não esconde o desejo de um dia trabalhar numa equipe profissional de São Gonçalo e região. Apesar de demonstrar foco no Ceres, ele se diz aberto às possibilidades que possam surgir futuramente.

– Sou grato ao Ceres e devo tudo em termos de oportunidade ao clube. Falo isso porque sou o treinador da equipe, mas estou aberto às possibilidades e não vou mentir. Se aparecer algo e me interessar, estou aberto a escutar, mesmo sabendo que o Ceres me projetou e levou o nome Valber Lessa onde levou. O próprio presidente sabe que estamos abertos para negociações. Se aparecer, vou estudar com muito carinho, mas até hoje não apareceu – explica Valber, que luta por maior valorização.

– Eu até hoje não consegui viver como treinador e nunca recebi um salário sequer. Ouvi muitas críticas por tirar do meu bolso e ir para o Ceres, mas para sonhar grande é preciso investir em você. Sempre acreditei no meu potencial. O diferencial é que trabalho e me dedico. Desde que cheguei no Ceres, vi como investimento. Agora eles me conhecem, não preciso provar nada – encerrou.